Pequenos excertos de uma alma que não se abre sempre, mas como poucos lêem, então poucos vão perceber...
Que homem não deseja saber o que o fruto do seu afeto pensa? Mas como isto me exaspera porque a cada instante você dá sinais de uma coisa diferente; de que quer uma outra coisa. Ah, que saudades do tempo que com apenas um olhar eu radiografava seus pensamentos e podia precisar o que se passava em sua cabeça. Mas este tempo não volta. Agora recebo apenas frieza e te lanço o mesmo olhar de Adão para Eva recém criada: “Que mulher é esta?”. Você é o inverso do clássico quadro de Vênus nascendo na concha nacarina, você está se fechando nesta concha e não te alcanço mais. Por que se esconde tanto? Porque foge tanto? Por que mudou tão rapidamente de atitude. Definitivamente espero tudo e nada de você.
Às vezes acho que tudo ocorreu rápido de mais, porém outras vezes penso que não. Foi um ardo trabalho construir o que construímos, se construímos algo, mas isto desmantelou-se como um castelo de areia frente ao impávido mar. Não sei o quê tínhamos/sentíamos era como uma fênix que renasce das cinzas, por isto não posso dizer se vai ressuscitar ou não. Sei que ainda guardo vivo na lembrança todos os bons e maus momentos que passamos juntos. Não sei o quê passa em teus tão atabalhoados pensamentos, mas creio que ainda guardas na memória muito do que comungamos por estes ditosos anos em que estivemos unidos. Gostaria de dizer que às vezes penso que talvez tenha sido melhor assim, pois estávamos destruindo um ao outro e a separação foi a melhor saída para não continuarmos dentro deste buraco negro que sugava-nos para seu interior. Meus olhos só viam dor e meu coração estava afogado no desespero e na tristeza. Não via saídas, nem solução a não ser a morte. Na época eu quis que soubesses para que me ajudasse, mas não foi bem isto que aconteceu. Gostaria de ser sincero com você e dizer que o que me magoou profundamente foi o fato de que tu não confiavas mais em mim. Sei que não dava muitos motivos para merecer sua confiança, mas pelo menos um pouco de consideração eu esperava. Eu só queria que fosses sincera comigo e contasse-me o que estava acontecendo, só que tive que ver o que estava acontecendo. Como seu amigo eu ansiava que você me disse e não que eu descobrisse. Mas deixe, não gostaria de colocar algumas conclusões que venho chegado. Gostaria sim de dizer muito mais coisas que, quer por medo, quer por não saber me expressar, nunca disse.
Não há o que desculpar, nem que pedir desculpas a não ser o fato de quê poderíamos ter sido mais sinceros e intensos um com o outro. Despeço-me com um pensamento de Kahlil Gibran que você sabe é meu escritor favorito:
“... Tudo isso passou-se ontem, minha amada, quando meus sonhos se escondiam na escuridão e temiam a aproximação do dia.
Tudo isso se passou quando a tristeza dilacerou meu coração e a Esperança esforçou-se por consertá-lo.
Em uma noite, numa hora, num pequeno espaço de tempo, o Espírito desceu do centro do círculo da luz divina e olhou para mim com os olhos do teu coração. Daquele olhar, nasceu o Amor, e ele encontrou refúgio em meu coração.
Esse grande Amor, envolto nas vestes de meus sentimentos, transformou a tristeza em alegria e o desespero em contentamento, a solidão em paraíso.”
Tenho medo de parecer que estou fazendo chantagem emocional, que quero deixar-te com pena, com compaixão. Parece, porque sofro, quero fazer com que sofras também. Mas não é verdade! Pelo contrário, se tua felicidade consistir em viver longe de mim, então que sigas teu caminho, pois tenho a certeza de que um dia nossos caminhos vão se reencontrar, e, então, eu poderei deleitar-me de teu amor por toda a eternidade. Não é uma despedida, é apenas um modo de dizer que sei que ficaremos juntos: nesta, ou na outra vida, ou, ainda, em outras encarnações. Porque sei que o meu primeiro olhar para ti não foi, na verdade, o primeiro. E o momento em que nossos corações se encontraram confirmou-me a crença na Eternidade e na Imortalidade da Alma. Pois quando olhei no fundo dos teus olhos eu reconheci minh’alma e tive a certeza de ter encontrado o Amor, a Felicidade e a parte que faltava em mim.
Só quero que saiba que desde o instante que começamos a nos aproximar eu senti que nos conhecíamos a gerações; e ontem eu percebi que nada é tão forte que possa manter-nos separados por muito tempo
Só Deus sabe quantas vezes vou dormir desejando nunca mais despertar; e pela manhã, quando abro os olhos e torno a ver o sol, sinto-me um desgraçado. Ah, se eu fosse um maluco, poderia jogar a culpa no tempo, em outra pessoa, num projeto fracassado, e assim o peso insuportável da minha dor poderia ser dividido. Que desgraçado sou: sei que perfeitamente que sou o único culpado... Não exatamente culpado, mas é em mim que está a fonte de todos os meus males, como outrora a fonte da minha felicidade. Não sou mais o homem que outrora nadava num mar de rosas, e a cada passo via surgir um paraíso, e cujo amor era capaz de abranger o mundo inteiro? Mas o coração que assim pulsava está morto, foi assassinado por um ser de tamanha candura que graça que não parece nem ser suspeito. Agora do meu coração não brota mais nenhum encanto; meus olhos, agora secos, não se refrescam mais de lágrimas benfazejas, e a angústia e as drogas abafam meus sentidos. Sofro ainda mais ao verificar que perdi tudo o que dava encanto a minha vida: os amigos (estes eu abandonei); a alegria; a poesia; o Amor... Muitas vezes cai de joelhos e rogo a Deus que mande algumas lágrimas, como um semeador implora a chuva em tempo de seca, e fico preso a milhões de vagos pensamentos...
Mas, pobre de mim, não são os nossos pedidos impulsivos que farão com que Deus conceda a chuva e o sol. E os tempos dos quais sinto uma torturante saudade sei que não voltarão mais. A dor anestesia-me e não consigo mais pensar. É uma dor latente, aguda, fria que toma conta do meu ser e faz-me pedir, delirantemente, pela morte. Nada desejo, nada peço, quero apenas partir...