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segunda-feira, maio 19, 2008

Muito Longe de casa

"un libro bueno es lo
mismo que un viejo
amigo..." Martí
O livro mais bacana quem li este ano ou, talvez, em anos. Conta a história real de um menino fugindo do horrores da guerra civil de Serra Leoa e que acaba virando soldado, pois não tem como mais fugir. Também conta a história de sua re-habilitação e fuga para os EUA. O livro é de um humanismo impar, e desvela os horrores da guerra com uma linguagem simples e envolvente. Porém é um livro triste, cru e não usa meios termos para tratar a crueldade humana. Já viram "Diamante de sangue"? Fichinha perto deste livro. Pode-se sentir o gosto de sangue e o cheiro de pólvora ao ler este livro e mostra a visão de quem mais sofre com as guerras: as crianças. Afinal, elas que ficam orfãs, são abusadas, mortas e/ou usadas como bucha de canhão na guerra. Fazem-se soldados de corpo e alma, pequenos infantes a lutar de maneira cruel, matando mais do que pessoas, mas a sua própria humanidade.
Talvez pensemos que a saída deles é fugir de lá, mas não nos esqueçamos que foi a divisão feita pelos europeus que causou todos estes conflitos na África e é a nossa indiferença que fortalece sua permanência nos dias atuais. Tal qual os meninos do tráfico, um dia o sangue derramado destas e por estas criança um dia será cobrado.
Pagaremos o preço?

sexta-feira, agosto 04, 2006

Zuzu Angel

Hoje fui ao cinema ver Zuzu Angel. Na minha modesta opinião é o melhor filme brasileiro do ano. Lógico que é um filme com uma estética de minissérie da Globo, com atores de novela e trilha de novela, mas não deixa de ser um bom filme. Não é um dramalhão como Olga, ou essas comédias românticas com ares de novela das sete, nem faz parte dessa nova estética do cinema brasileiro da pobreza glamurizada.
Esse é o filme sobre uma mãe que perde o filho para a ditadura militar (apesar de alguns ainda insistem em dizer que não foi violenta, ou que ela foi “redentora”) e passa a encará-la de frente para reaver o corpo do filho morto. Zuzu não pára, ela é parada pela ditadura que a mata depois que ela sai de um viaduto, o hoje conhecido “Viaduto Zuzu Angel”.
Vendo este filme eu consegui entender toda a profundidade do meu verso de música preferido; que é do Chico Buarque, que foi um grande amigo de Zuzu e para quem ela entregou uma carta dizendo que se morresse a culpa era dos militares. O verso é tirado da música “Pedaço de mim” e diz: “A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. A melhor definição desta palavrinha (saudade) que só existe na língua portuguesa. Na verdade penso que só uma cultura como a portuguesa, que era de navegadores intrépidos, poderia criar uma palavra para descrever este sentimento. Como diz o poeta “Ó mar salgado quanto do teu sal? São lágrimas de Portugal?”. Só uma nação que se entregou ao mar sabe o que é sentir saudade. Só uma mãe que perde um filho sabe o que é sentir saudade.

Angélica
(Miltinho e Chico Buarque)

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar
Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar
Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele não pode mais cantar


P.S . música escrita para Zuzu Angel

quinta-feira, junho 08, 2006

O Caçador de Pipas

Já li muitos livros durante a minha breve vida. Não tantos quanto gostaria, ou deveria, mas os li e gosto muito disso. E cada um desses livros me ajudou a ser uma pessoa melhor (está bem, nem todos); foram verdadeiros mestres da vida. Cada livro que eu leio me ajuda a formar, ou mudar, meu modo de ver o mundo. Mas poucos livros fizeram-me mudar completamente.
Sabe aqueles livros que, depois que você os lê, você se sente órfão, abandonado? Aqueles livros que te roubam o chão, revolucionando todo o seu pensamento. Geralmente, quando estou lendo, eu vou engatando um livro no outro: mal termino um e já estou lendo outro. Mas certos livros precisam de um tempo de meditação depois. Um tempo para você reorganizar sua vida e suas idéias. Um tempo para você terminar de digerí-los.
De todos os livros que eu já li não mais que cinco estão nesta categoria. Não estou sendo injusto com os outros, mas é que esses me fizeram repensar toda a minha vida, como se tudo o que eu tivesse vivido não fosse nada.
Um deles foi “A Idade da Razão” do Sartre. Lembro que depois de lê-lo eu passei uma semana que recompondo. Reconhecer a consciência nos outros; que eu sou aquilo que os outros pensam de mim; que cada consciência é livre e interligada. Muitas outras questões apareceram. Vi-me pela primeira vez como um ser pequeno burguês cheio de preconceitos e idéias pré-concebidas e não achei isto ruim. Lembro que em certas partes do livro eu sentia um gosto amargo na boca, como se fosse uma reação ao quê minha mente estava passando.
Outro livro que eu posso citar dentro desta categoria é “Os Miseráveis” do Vitor Hugo. Até hoje a figura de Jean Valjean me persegue. Mas de uma maneira boa; penso em como ele agiria, ou o que ele faria em certas situações. Maravilhoso este livro. Mostra que todos somos vítimas mais da sociedade do que da “natureza” e um homem pode tentar se reerguer, mas a sociedade que criou o ladrão, não podendo enforcá-lo,não deixa, relegando-o a subcategorias. Quem é mais “miserável”: Jean Valjean ou Valvert?
Por fim o livro que terminei hoje as 06:00 horas da manhã: “O Caçador de pipas” de Khaled Housseini. Passei o dia remoendo e repensando o livro. Quanto tenho de cada personagem? Não sei! O livro fala de amizade; de relações; de culpa e perdão. Se você quer saber do que o livro fala vá ler a crítica da “Veja”. Sobre este livro só posso dizer que eu ainda estou meditando, preso a sua força. Amir, que é o protagonista, durante o romance toma certas atitudes que me fez ter raiva dele, mas depois eu me peguei pensando: eu, no lugar dele, faria diferente? Não saberia responder! Sei que este é um livro que me marcou muito e ainda não vislumbro aonde ele vai me levar. Sei que por vezes quis jogar o livro para longe e não lê-lo mais; não por ele ser ruim, muito pelo contrário, mas por medo do quê eu sei que ele faria comigo, e fez, depois de sua leitura. Hoje, se alguém me pedisse uma indicação de livro, com certeza eu só saberia responder: “O Caçador de pipas”!

segunda-feira, junho 05, 2006

Lolita

Lolita, luz da minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lolita: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.

Realizei uma das minhas ambições intelectuais: li Lolita do russo Vladmir Nabokov. O livro é muito bom, mas a parte que mais me toca é este começo, que em termos de narrativa e descrição é a melhor do livro. A história é fantástica e eu só a tinha visto na TV, num filme com o Lian Nelson (que, diga-se de passagem, fez meu personagem preferido, Jean Valjean, no cinema também) que é a versão mais recente. Mas, como todos sabem, adaptações de obras literárias para o cinema nunca ficam boas.
O livro, como é de conhecimento comum, fala das relações de um quarentão e de uma menina de doze anos. Por sempre ter sido tratado por imoral e por falar deste grande tabu que é a pedofilia, têm-se a impressão de que o livro vai ser cheio de passagens picantes e obscenas. Muito pelo contrário. O livro é sutil nesta parte e fala mais dos conflitos e das dores e amores do senhor Humbert Humbert.
Nabokov estava nos EUA quando escreveu Lolita, e fez questão de fazê-lo em inglês. Não é um livro que fale mal do “Anos Dourados” americano como podemos pensar depois de uma leitura mais rápida, mas com certeza retrata a decadência de uma sociedade do pós-guerra. Não pela pedofilia, já que o professor H.H. é europeu, mas pelo comportamento de todos os outros personagens que giram em volta de Lolita e seu padrasto. As meninas são todas depravadas e as mulheres de idade também. Os homens são pusilânimes e, mesmo suspeitando que professor Humbert abuse de Dolores Haze, nunca tomam atitudes.
O livro é muito bom e vale a pena ser lido. Não porque é um dos clássicos da literatura mundial, mas porque é muito bem escrito. Sobre o tema (pedofilia), o autor diz que foi escolhido para chocar a sociedade americana da época (tanto que o livro foi publicado primeiro na França). Os outros dois temas que ele diz que também chocariam e que ele cogitou: um branco casando com uma negra (ou vice-versa) e tendo filhos e netos e vivendo felizes; ou ao ateu incorrigível que leva uma vida útil, feliz e produtiva e não carrega remorsos. Olhando de longe, estes temas continuam sendo tabus não só nos EUA como em boa parte do mundo!

terça-feira, maio 30, 2006

José Martí

Li José Marti. Lindo, emocionante. Agora entendo o que o Fidel Castro viu nele. Pena que el comandante não soube entendê-lo direito.
Um sonhador, um poeta, um político engajado, um homem terno. Muitos são os adjetivos para descrevê-lo, mas o Libertador de Cuba não se encaixa simplesmente em adjetivos. Ele é mais. É um desses lumiares do pensamento que vez por outra nos brinda com sua genialidade. Nos podemos sentir o perfume de seu pensamento libertário até hoje nestas pessoas que insistem em lutar por uma América Latina livre e una.
Não falo deste populismo barato que tem pipocado por nossa América. Não falo de Chaves, Lulas, Morales e quem mais for.
Falo deste povo que todo dia sofre, chora, luta e traz no corpo e na alma as marcas indeléveis de quinhentos anos de escravidão.
Quisera eu que outros Josés Martí aparecessem e nos dessem a luz de seus pensamentos.

Ahora vamonos a el poeta.


Versos sencillos

Si ves un monte de espumas,
Es mi verso lo que ves:
Mi verso es un monte,
y es Un abanico de plumas.
Mi verso es como un puñal
Que por el puño echa flor:
Mi verso es un surtidor
Que da un agua de coral.
Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido:
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo.
Mi verso al valiente agrada:
Mi verso, breve y sincero,
Es del vigor de acero
Con que se funde la espada.
Ideario
En América hay dos pueblos, y no más que dos, de alma muy diversa por los orígenes, antecedentes y costumbres, y sólo semejantes en la identidad fundamental humana. (MARTÍ: VIII, 35)