sábado, maio 28, 2011

Poesiazinha

Meus olhos nos seus

Isso é possível?

Coração por coração,

Há solução?

Esqueço-me de mim,

Lembro-me de nós.

Insisto em “nós”?

quarta-feira, maio 25, 2011

Editorial

Estou retomando este blog. Talvez ele mude de nome, talvez não.
Pretendo escrever aqui com certa frequência (olha só, última vez que escrevi, "frequência" ainda tinha trema). Vai ser mais do mesmo: poesias, crônicas, contos, resenhas de livros e filmes e reflexões sobre tudo. Começo com uma série de contos e crônicas baseados nas músicas dos Beatles.
Quem não conhecia aproveite para ver os post antigos.
Quem já conhece seja bem vindo novamente.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Voglio un giorno per piangere

Voltei, quem sabe para ficar, e começo com uma descoberta que fiz na internet: resolvi fazer uma saudável busca pelo meu nome no google, quando encontro, num fórum de discussão italiano uma poesia minha traduzida por eles.
Senti-me veramente lisonjeado e compartilho com vocês esta versão:

"Mi piace molto Álvaro Fonseca Duarte, lui è un ragazzo di 21 anni, ma le sue poesie mi piacciono molto..Te dedico una che mi piace in particolare:"

"La traduzione sarebbe questa (non perfetta perchè ho tradotto io adesso)

Voglio un giorno per piangere

Voglio un giorno per piangere;
Un giorno freddo, triste, con il clima ideale
Per piangere, come non ho mai fatto
E cosi esorcizzare tutto il male.

Voglio piangere per l'amore che non ho mai avuto,
Piangere per l'amore che ho perduto,
Soffrire con l'amore che ancora vive,
E ricordarmi il dolore cho ho già sofferto.

Annegarmi tra singhiozzi e dolori,
Dimenticarmi per un giorno;
Caminare nella Valle della Morte e i suoi portali,
Perdermi solo nella notte fredda.

E quando finalmente l'amore mi abbandonerà,
Desidererò un solo giorno per piangere .
Quero um dia para chorar
Quero um dia para chorar;
Um dia frio, triste, com o clima ideal
Para chorar como nunca chorei
E assim exorcizar todo o mal.
Chorar pelo amor que nunca tive;
Lamentar o amor que perdi;
Sofrer com o amor que ainda vive;
E lembrar a dor que já senti.
Afogar-me entre soluço e ais;
Esquecer-me por um dia;
Andar no Vale da Morte e seus umbrais;
Perder-me só na noite fria.
E quando enfim o amor me abandonar
Vou querer apenas um dia para chorar.
Álvaro Fonseca Duarte

(comentários dos carcamanos: Ti piace? Bella, veramente bella Vediamo se è stato edito qualcosa di questo poeta in italiano)

quem quiser conferir é só entrar: http://195.110.124.116/showthread.php?t=52646&page=115

segunda-feira, maio 19, 2008

Muito Longe de casa

"un libro bueno es lo
mismo que un viejo
amigo..." Martí
O livro mais bacana quem li este ano ou, talvez, em anos. Conta a história real de um menino fugindo do horrores da guerra civil de Serra Leoa e que acaba virando soldado, pois não tem como mais fugir. Também conta a história de sua re-habilitação e fuga para os EUA. O livro é de um humanismo impar, e desvela os horrores da guerra com uma linguagem simples e envolvente. Porém é um livro triste, cru e não usa meios termos para tratar a crueldade humana. Já viram "Diamante de sangue"? Fichinha perto deste livro. Pode-se sentir o gosto de sangue e o cheiro de pólvora ao ler este livro e mostra a visão de quem mais sofre com as guerras: as crianças. Afinal, elas que ficam orfãs, são abusadas, mortas e/ou usadas como bucha de canhão na guerra. Fazem-se soldados de corpo e alma, pequenos infantes a lutar de maneira cruel, matando mais do que pessoas, mas a sua própria humanidade.
Talvez pensemos que a saída deles é fugir de lá, mas não nos esqueçamos que foi a divisão feita pelos europeus que causou todos estes conflitos na África e é a nossa indiferença que fortalece sua permanência nos dias atuais. Tal qual os meninos do tráfico, um dia o sangue derramado destas e por estas criança um dia será cobrado.
Pagaremos o preço?

quarta-feira, abril 30, 2008

Dos processos Educativos

Época de conselho nos faz reflitir certos temas, mas o principal é qual o papel do professor e do aluno no processo de ensino-aprendizado? Vale a pena parar e analisar certas questões desta pergunta.Primeira parte da pergunta a se responder é: qual a importância das opções éticas do docente no processo educativo? “O professor não atua seguindo modelos formais e científicos... senão que responde pessoalmente, na medida de suas possibilidades, e com diferente grau de compromisso ético profissional, às exigências de seu trabalho com um grupo de alunos em determinadas condições” ( SACRISTAN p. 274). Dessa forma Sacristán coloca a importância de um compromisso ético do profissional da educação com o processo educacional. O professor deve ter consciência de que sua atuação traz conseqüências imediatas para a vida dos alunos, e que, portanto, seu compromisso com os resultados de sua atuação deve ser constantemente observado. A influência que exerce e o aprendizado que proporciona tornam o profissional da educação peça essencial no desenvolvimento pessoal de seus alunos e, por isso, o compromisso ético do docente com esse processo educacional deve ser de fundamental importância.O processo de ensino e aprendizagem não depende única e exclusivamente do professor, mas precisa também contar com a participação e colaboração dos alunos. Sem essa contrapartida dos discentes de nada adianta a boa elaboração de planos de aula ou o esforço isolado dos docentes na educação. “Requer-se deles ( dos alunos) um certo compromisso com a tarefa, uma ordem e uma disciplina apoiadas nas regras do trabalho”. Segundo Sacristán “a educação pode ser atrativa e produto de uma colaboração entre professores e alunos...”tornando-se um processo conjunto de aprendizagem. A participação necessária e mesmo essencial, do aluno em sua formação não significa que eles devam escolher livremente o que de essencial devem aprender, mas que “podem participar na discussão do plano de trabalho, na relação de tarefas alternativas, na análise do trabalho realizado, na busca de recursos externos...”. De acordo com os autores de escolas Democráticas, Michael Apple e James Beanes, a participação ativa dos alunos é pressuposto essencial para que se possa ter uma educação democrática, que envolve não apenas alunos e professores, mas toda a comunidade em geral. Nessas escolas os alunos são ativos no processo de aprendizagem, o que torna e escola um espaço de interação entre alunos e profissionais da educação, facilitando o envolvimento direto de todos os interessados no processo.

sábado, março 29, 2008

Eu não vendo educação

Não acredito em instituições que dizem que podem garantir seu aprendizado. Ué, como podemos fazer isto de maneira objetiva, sem dar margens para especulações? Se como professor já me sinto incomodado em atribuir notas às provas e trabalhos, imagine garantir, com cem por cento de certeza, que meu aluno aprende realmente!? Coisa de louco!
Também não acredito em cursinhos que oferecem seguro-reprovação. Acham-se tão bons, tão eficazes que se dão a este luxo, mas esquecem todo o caráter subjetivo que a relação ensinar –aprender possui. A não ser que não estejam preocupados com isto, com o saber, mas apenas com que seus alunos acumulem a maior quantidade de informação possível e depois vomite-a nas provas de vestibular. Se vão saber os conteúdos, ou se serão capazes de estabelecer relações complexas entre os conhecimentos, não lhes interessa. Importa que passem no vestibular e entrem, semi-analfabetos, na faculdade.
Não acredito em pessoas que defendem que professores tem que receber por produtividade. Como se quantificaria isto? Se é por número de alunos com boas notas é só fazer provas fáceis, ou o contrário, alunos com notas baixas, provas impossíveis. Se é por quantidade de conteúdos é só despejá-los sobre os alunos, não importando se aprenderam ou não. Escolas não são linhas de montagem, não dá para cobrar por produção.
Acredito no conhecer (do latim “nascer com”). Creio que a escola e professores têm que fazer com que este “nascer com” realmente nasça dos alunos, venha à tona. Acredito no saber (do latim, “saborear”; por isto defendo a volta do latim ao currículo, pois ensina a pensar melhor), no fazer com que os alunos “saboreiem” os conteúdos. Se existem enólogos cheios de regras para degustar vinhos, porque não aprender a degustar a vida?
A prática, em geral, se distancia disso. Mas deixar de crer que podemos fazer a diferença nos matará de vez.

domingo, janeiro 20, 2008

O caçador de pipas - o filme

Fui ver o filme. Não é tão bom quanto o livro, mas é triste igual. As interpretações estão a altura dos personagens, principalmente os menininhos que fazem o Hassam e o Amir. A fotografia não surpreende, mas era mais ou menos com estas cores que eu imagina quando estava lendo. O baba esta especialmente bom; e o Amir mais velho é mais macho.

O que eu mais gostei é que o filem esta profundo, com uma narrativa lenta (mais lenta do que o livro) e, para quem leu o livro, faz com que você fique esperando certas cenas.

Vale a pena. Foge destes filmes mais palatáveis do cinema americano. Tanto que os afegãos falam farsi durante quase todo o filme e não apenas inglês com sotaque (ver "amor nos tempos do cólera", em que os atores falam inglês com sotaque espanhol).

Gostei e recomendo.

sexta-feira, maio 11, 2007

A Bailarina

Na ponta dos pés,
O olhar de tão menina,
Ela dança,
A bailarina.

Em cima do tablado
Sapateia com disciplina;
Ela flamenca;
A Bailarina.

Seus cabelos longos;
Tudo rubro na retina;
Ela fascina;
A Bailarina.

Fico, assim, embriagado
De uma sina;
Ela inebria
A Bailarina.

Este amor me consome,
Como da vela a parafina
Ela devora
A Bailarina.

Num passo arrebata,
Um beijo de cajuína;
Ela ama;
A Bailarina.

Ela me abandona
Sozinho na neblina;
Ela some
A Bailarina.

domingo, maio 06, 2007

Manual do Revolucionário Moderno

(reeditado do inhamefilosofante antigo)

Hobsbawn diz que estamos passando por uma crise de utopias. Concordo com ele. As pessoas não vêem mais sentido em mobilizações, marchas (sejam elas “com Deus, pela propriedade e a Família”, ou pela reforma agrária) – desconsidero a dos MGLTS que não passam de um grande carnaval – abaixo-assinados, boicotes e até mesmo a simples e compreensível indignação frente à corrupção por exemplo. Ninguém mais acredita nos grandes ideais, ou nas grandes causas. Não existem mais grandes causas. Por conta disso resolvi deixar este pequeno legado para as gerações futuras, para que não pensem que o pessoal que nasceu nos anos 1980 e 1990 era uma grande massa uniforme e alienada.

Primeiro ponto.
Seja um obeso ou esquelético.
Numa sociedade de culto ao corpo estar em uma dessas categorias configura-se um grande ato de revolta. O importante é estar desalinhado com o padrão de beleza imposto pela sociedade moderna. Nada de corpos que lembrem uma escultura de Michelangelo (desculpem-me as pessoas que cultivam o corpo, comparar estas maravilhas criadas nas academias com obras feitas com pedra e cinzel é muita grosseria da minha parte), mas que pareçam caricaturas mal feitas como símbolos da resistência a nova ordem. Ao invés de barrigas de tanquinho uma barriga de cerveja com estrias roxas por toda parte. Ao invés de músculos saltando pelas roupas, ossos bem definidos sobre a pele. O revolucionário moderno tem que compreender que deve usar seu corpo como uma arma contra o modelo de sociedade vigente; como forma de resistência política àqueles que nos querem tornar em um grande exército de barbies e kens.

Ponto B.
Leia os clássicos.
Abomine livros de auto-ajuda e best sellers (tirando a Bíblia e os do LFV, que não têm culpa de venderem bem). Os que aparecem em listas como a da “Veja”, “Gazeta do Povo”, ou que o autor aparece na ilha de Caras devem ser completamente ignorados, salvo para tirar sarro. Leia os clássicos, de preferência em sua língua original. Leia Platão, Shakespeare, Goethe, Nietzsche, Sartre, todos os românticos franceses. Despreze os Browns e os Johnson da vida. Despreze ainda mais os que fazem cópias baratas destes autores. Se alguém perguntar se você leu o “Qualquer coisa do Graal” ou o “Quem mexeu no meu...?” (complete com o que desejar) diga que você esta lendo a “Montanha Mágica” do Thomas Mann, ou “Os Miseráveis” em francês. Um revolucionário tem que ter um cabedal respeitável de cultura. Como alguém quer construir uma nova sociedade se nunca leu “A República” de Platão?

Item 3.
Fuja da mediocridade/vulgaridade.
Corra da mediocridade como o diabo da cruz. Conheça as coisas não só de ouvir falar. Não seja um papagaio de pirata. Se quiserem que você dê sua opinião abalizada sobre algum assunto não repita as baboseiras do Arnaldo Jabor, ou de qualquer comentarista da Globo. Fuja do “óbvio ululante” que ronda as mentes atuais. Informe-se. Isto fará com que ganhemos a guerra.

Quarto Mandamento.
Seja politicamente incorreto.
Uma pessoa que não enxerga é cego, cegueta. Uma pessoa que gosta de homem (e não é mulher) é bicha, viadinho, baitola; assim como mulher que gosta de mulher é sapatão, sapata, cola velcro. Uma pessoa de cor é negra. Alguém que não anda direito é manco. Nada de deficiente visual, homossexual, afro-descendente ou deficiente físico. Esta histeria do “politicamente correto” está minando as bases da sociedade. Se chamassem o Dr Luther King de afro-descendente ele nunca teria começado o movimento que angariou vários direitos aos negros norte-americanos. Eles querem fazer de cada pessoa um “Big brother” (do Orwell, não dá Globo. Dúvidas? volte ao ponto B); um alcagüete; um dedo-duro. Todos se policiando e se culpando torna-nos mais fáceis de sermos controlados. Assim nada sai dos eixos, porque ninguém vai emitir sua opinião em público com medo das represálias dos seus pares. Ensinar os filhos a cantar “Atirei o pau no gato” é o grande legado para as gerações vindouras. È a base do “politicamente incorreto”. Sem contar que uma criancinha fazendo apologia à violência causará horror a toda trupe ensandecida e vigilante do “politicamente correto”.

Mais alguns conselhos.
- Os revolucionários modernos devem abominar Che Guevara, porque ele virou fashion. Amem o Fidel, que não está na moda e lutou pelos mesmos ideais do “Che” (e que, segundo Sartre, ensinou o argentino o que ele sabia sobre revolução). Nada de camisetas da C&A com a foto do cabrón. Faça uma em casa e use-a!
- Piercing era o máximo da rebeldia nos idos anos 80. Agora 10 entre 10 modelos do Fashion Week usam. Um piercing íntimo pode ser uma saída.
- Assista TV Senado e TV Câmara ao invés de Globo e SBT.
- Não use roupas de marcas, nem compradas em grandes magazines. Melhor: não use nada. Não seja um “rebelde sem causa”, mas um “rebelde sem calças” como diria o poeta.
- O mundo moderno costuma transformar todos os símbolos de rebeldia em mercadoria e os comercializar, por isto é importante que o Revolucionário moderno seja uma “Metamorfose Ambulante”, como diria Raul (que também já caiu nas graças da burguesia), e que, acima de tudo, não seja consumista.
- Finalmente o revolucionário de nossos dias deve amar tudo o que é kitsh, mesmo não sabendo o que é isto direito (e o medo de cair no mau gosto!?)


Você não precisa seguir todos esses conselhos. Com certeza seguindo-os você não mudará o mundo. Mas crer, propagar e praticar pelo menos um deles tornará o mundo um lugar menos idiota para se viver...

quinta-feira, maio 03, 2007

Poeminha de Quinta

Teus olhos sorriem ao olhar
Que de tal forma me encantam
E me fazem, sinceramente, pensar
Por que eles também não cantam?

Assim me perco em devaneios
E enfrento inúmeras intempéries
Pergunto-lhe, enfim, sem rodeios:
Por que não me queres?

Contemplando-te adentro a beleza,
Alvíssimo sonho de mulher,
E passo a entender a natureza
De não ter o que se quer.

E mais nada importaria
Se teu olhar me acompanhasse;
Minha vida de tal forma se iluminaria,
Como um eterno sol que nasce.

(aula da judite o3/05)

quarta-feira, maio 02, 2007

Soneto

Aqui vai uma tradução de um soneto de Shakespeare. Segui a rima (abab abab abab cc), forma comum dos sonetos de Shakespeare e que as vezes eu imito. Não coloquei nenhuma métrica porque não tenho capacidade para tanto. Bom, quem quiser me presentear pode me dar um livro com os sonetos do bardo. Tem um da Martin Claret que parece ser muito bom (Apesar de feios, segundo meu amigo Palma, eles possuem boas traduções). Lembrem-se meninos e meninas: traduções são iguais as esposas: as boas não são fiéis e as fiéis não são boas.

Da mais alva criatura desejamos aumentar,
Que por meio disso a bela rosa nunca morrerá,
Mas como o maduro tem o tempo para expirar,
Sua suave herança sua memória conterá.

Mas tu contrataste para teus olhos brilhantes,
Alimentando a chama da tua luz como combustível,
Provocando uma escassez em meio a mentiras abundantes,
Teu “eu” teu adversário, para teu doce eu tão vil.

Tu que a arte, ao mundo, um novo ornamento traz,
E o único arauto para a esplêndida primavera,
Dentro de teu próprio broto, enterrada tua paz
E o doce beócio desperdiça onde a mesquinhez impera.

Lamenta o mundo, ou mas este ser voraz,
Para comer o direito, a ti, a campa e o que lhe compraz.



From fairest creatures we desire increase,
That thereby beauty's rose might never die,
But as the riper should by time decease,
His tender heir might bear his memory:

But thou contracted to thine own bright eyes,
Feed'st thy light's flame with self-substantial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thy self thy foe, to thy sweet self too cruel:

Thou that art now the world's fresh ornament,
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content,
And tender churl mak'st waste in niggarding:

Pity the world, or else this glutton be,
To eat the world's due, by the grave and thee.

A vida tem dessas coisas.

Ele

Antônio era um homem tranqüilo. De compleição fraca, procurava não se preocupar muito com as coisas que o rodavam. Era marceneiro de profissão e trabalhava sozinho num galpão alugado. Fazia móveis, portas, janelas e brinquedos. Se bem que ninguém mais comprava brinquedos de madeira, mas ele os continuava fazendo. Não tinha muitos amigos, não freqüentava bares e não saía a noite. Chegava em casa, religiosamente, às 19hs, preparava sua janta, pois morava sozinho, e ia dormir logo após o jornal. Aos domingos passeava no parque perto de sua casa. Gostava de andar descalço pela grama e se sentar embaixo de uma árvore e para ver as pessoas passeando com suas famílias. Foi num desses passeios que conheceu Sílvia.

Ela.

Silvia era uma moça tímida e muito quieta. Ninguém sabe ao certo como os dois começaram a namorar. Ela sempre passeava com a irmã e os sobrinhos no parque e via aquele jovem senhor sentado ali, triste e solitário que dava dó. Parece que num domingo desses, ela se sentou ao lado dele e pegou-lhe a mão. Talvez tenha sido pena de vê-lo assim tão sozinho, ou então uma paixão repentina; não importa: eles começaram a namorar e três meses depois eles se casaram.

O Casamento.


A festa foi bem simples, na casa dos pais da noiva e para uns poucos convidados. Um padre amigo da família oficiou o casamento. Não viajaram em lua-de-mel. Ela simplesmente levou suas poucas roupas para a casa de Antônio e deu um jeito de arrumar o lugar, deixando-o um pouco mais confortável. Sílvia passou a trabalhar de diarista durante meio período e no resto do dia cuidava da casa. Agora Antônio já encontrava a janta pronta quando chegava em casa e passou a dormir depois da novela, para esperar a esposa. Aos domingos os dois iam ao parque depois do almoço e ao entardecer ela ia visitar a família e ele ia para um bar jogar dominó com uns primos de sua mulher. Foi no bar que ele conheceu Vanger, conhecida como Vandeca furacão.

A outra.

Vandeca furacão era o terror das esposas do bairro. Uma morena exuberante, que ia para o Rio de Janeiro desfilar em escola de samba e vivia no bar em meio aos homens, não se importando com os comentários das outras. Antônio ficou, como os demais, embasbacado com a espontaneidade e a beleza de Vandeca e por uma dessas ironias da vida, e a vida tem dessas coisas, ela também ficou interessada por ele. Passou a jogar dominó também para sentar-se ao lado de Antônio e encostar-se em sua perna. Por vezes se debruçava sobre a mesa e deixava transparecer o seu decote que ia até o umbigo. Ao final, tantas fez que conquistou o pobre do rapaz. Viraram amantes e ela ia todos os dias a sua oficina para encontrá-lo. Passaram dois meses desta maneira: todas as tardes, lá pelas 17hs, Antônio fechava o galpão e esperava Vandeca, com quem ficava até o final do seu expediente.


A briga.

Nestes dois meses todo o bairro já sabia do caso dos dois, inclusive Sílvia. Ela se fazia de boba, para não sofrer, mas no fundo sabia o que estava acontecendo. Foi um dia, Antônio chegou em casa e não encontrou a janta pronta. Ouviu barulho de choro no quarto e foi ver o que estava acontecendo. Sílvia estava com as mãos sobre o rosto e chorava copiosamente. Antônio quis saber o que aconteceu e recebeu de Silvia a resposta junto com uma metralhadora de palavrões. O resumo da ópera era que Vandeca tinha passado a tarde em frente à casa deles, anunciando para todo mundo onde ia e o que ia fazer. Sílvia não podia agüentar. Não agora que estava grávida. Antônio ficou mudo, mas sabia como ia resolver tudo. No outro dia Antônio carregou a mulher até o galpão e ficou trancado com ela até Vandeca chegar. Estava com um revolver calibre trinta e oito, que não serve para mais nada a não ser matar pessoas, que recebeu como pagamento de um serviço. As 17hs, a outra chegou e encontrou os dois quietos, esperando. Ficou muda também. Antônio mandou-a se sentar e começou a andar pelo galpão. Alguns vizinhos descobriram o que estava acontecendo e chamaram a polícia. Quando os guardas chegaram e cercaram o galpão tudo já tinha acabado. Pouco antes os vizinhos escutaram um disparo e correram para ver. No chão estava Antônio, com um tiro na cabeça e a arma na mão. Suicidou-se. E não o fez sem antes dar um demorado beijo na esposa jurando que só a ela amava. No galpão apenas Vandeca chorava. Sílvia estava firme, olhando com pena para o seu marido e para a outra. Ela ao menos sabia o que era ter sido amada.

domingo, abril 29, 2007

Minha vida!

Falhei miseravelmente em fazê-la feliz...



Regra Três
(Vinicius de Moraes / Toquinho)
Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais
Da primeira vez ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar
Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.
Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar

sábado, abril 28, 2007

Poesias

duas, das antigas, e que têm a ver com a data de hoje (presente e passado)...


Andando só, sob o luar;
Triste e pensativo, o frio me aquecia;
Teu nome comecei a chamar,
Mas você não respondia.

Dei-me a sonhar, a divagações;
Comecei a pensar em você.
O que tem de bela e doce?
O que faz destruir os corações?

Ponho-me a escrever;
Para ver se você sente,
Compreende, passa a entender;
O quê em você me prende.

Não serão seus olhos de menina;
Não serão suas formas de mulher;
Não serão seus beijos de cajuína;
Não será este teu modo de querer.

Será tua alma incontrolável;
Teu modo de ser meio amalucado;
Teu modo de chorar; teu sorriso imaculado;
E por você ser, unicamente, inexplicável.

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Ela me lembra
uma das amigas da minha irmã
Mas não uma santa.

Ela me lembra
uma adolescente descobrindo a vida,
Mas não uma santa.

Ela me lembra
uma cortesã no exercício de seu oficio,
Mas não uma santa.

Ela me lembra
uma qualquer que ama, ri, chora,
Mas não uma santa.

Ela me lembra
uma mulher, uma menina, uma rapariga,
Mas não uma santa.

Talvez ela nunca tenha sido uma santa!

quarta-feira, abril 25, 2007

Poesia n° 4

Da coleção "Hebréia"

Tu me olhaste;
Parecia que não me conhecia.
Tristeza.
Amanhecia.

Te chamei e sorriste;
Te olhar me nutria.
Surpresa.
Meio-dia.

Ao meu lado caminhaste,
Meu coração por ti ardia.
Silêncio.
Entardecia.

De mim te aproximaste;
Minha boca te queria.
Lábios
Anoitecia

Durante a noite cavalgaste,
Com minhas carícias como açoite.
Luxúria.
Meia-noite.

Tu me abandonaste;
Tudo se perdia.
Tristeza.
Amanhecia .

sexta-feira, abril 20, 2007

Poesia Árabe (original)

Lendo um texto sobre a Arábia pré-islâmica, descobri que, em determinada época, um pouco antes de Maomé, os poetas eram os chefes tribais. E eles tinham uma disputa de poesias que substituía a guerra nos meses sagrados; e os vencedores tinham sua poesia escrita sobre seda com letras de ouro e eram colocados na Ka´ba. Isto faz-me pensar em como os poetas são desvalorizados em uma cultura, como a nossa, em que há uma banalização da informação e do saber e como eles (nós) eram importantes numa sociedade em que a forma de se preservar a memória era através da poesia. A poesia para os povos árabes, ainda tribais, tinha um caráter duplo: por um lado contar as façanhas heróicas da tribo e de seus guerreiros; e por outro tratavam o amor, muitas vezes não correspondido. Aqui vai uma mostra deste tipo de poesia:

Vi uma donzela cujos cabelos caem
Até o solo e são negros como a noite.
Debaixo de suas tranças escuras, se assemelha à aurora surgindo das trevas.
Es tão bela que todos a admiram
E se apressam em servi-la.
E eu ocultarei meu amor no fundo do meu coração
Até que me seja permitido revelar-lo.

Poesia n°3

Ela é tão delicada e suave que eu tenho até medo de tocá-la. e possui uma ciência, um olhar sério que por vezes me assusta. Ah, mas como o riso nasce fácil naqueles lábios e eu fico tão comovido quando é direcionado a mim. Depois de hoje não poderia fazer mais nada a não ser escrever:
(escrito em papel de pão)

Da coleção "Hebréia":

Se pudesse mais perto de ti chegar,
E fazer surgir em sua face o rubor;
Com insanas promessas arrebatar
Da tua boca um beijo com furor.

Não me olhes assim entediada,
Como quem já ouviu isto antes;
Numa chance deixarei-te extasiada
Contando-te meus sonhos, contigo, delirantes.

Ah, dê-me ao menos um sorriso,
Pois tua boca, de tal maneira, me encanta
Que ao chegar perto eu perco o ciso.

Quero ver se manténs-se séria e santa
Se como um corsário eu te atacar
Tocando a fonte, fazendo seus tesouros me entregar.

terça-feira, abril 17, 2007

Poesia

Queria ter algo para escrever;
algo que fizesse jus a sua beleza;
mas hoje as palavras fogem;
espero que perdoe esta indelicadeza.

é que te sinto tão perto,
que de ti fico repleto, assim
os meus versos saem tão incertos,
que não sei se são dedicados a ti ou a mim.

mas saiba que pensei em você;
a cada segundo, cada instante vão;
fingi que sobre você escrevia
e te entregava, na poesia, meu coração.

segunda-feira, abril 16, 2007

Noir

Ela tem um jeito ousado de se vestir que o fascina. Parece que ela foi sempre assim. Parece que sempre teve uma pena na orelha e unhas vermelhas. Mas ele descobriu que não é bem assim. Como a rosa do Pequeno Príncipe ela cultiva suas garras rubras para se defender do mundo, para se esconder de si mesma. E o ar liberal só esconde uma mini-réplica de Bárbara Bush.
No balcão do bar ele pede mais uma dose de rum e continua em silêncio. Não quer atrapalhar os pensamentos e a fala da moça ao lado, que mais parece uma chaminé. Ela está nervosa, passando por uma crise de autoconhecimento. É como uma borboleta saindo do casulo. Ele não pode fazer nada a não ser estar ali; ou mandá-la regular nos cigarros. Bom, ele prefere continuar só ouvindo-a falar sobre suas dúvidas vocacionais.
Ela termina sua bebida. Trocam olhares rapidamente. Ele se levanta, paga a conta, toca suavemente a sua mão e se dirigem ao estacionamento em silêncio.
Ele a leva em casa. Um prédio bonito, com muitos apartamentos. Observa-a por longos segundos. Continuam em silêncio. Não falam nada, pois mais nada precisa ser dito. Está tudo ali, numa insustentável leveza entre os dois. Ela sai, sem ao menos dizer adeus. Ele sabe o que se passa em sua cabeça e não ousa questioná-la. Apenas respeita, esperando o dia em que ela volte a ser ousada.
Ele parte, dirigindo apenas. No rádio um blues triste e longo toca. Seus pensamentos são agridoces. Só consegue pensar nos olhos dela. Como são belos e como escondem a tristeza. Aquele amêndoa, rajado, levemente, de verde sempre o persegue. Parecem que nasceram para refletir amor e paz, mas é o contrário que está lá. Ele não consegue acreditar nisso, mas esses olhos nunca mentiram antes, então por quê o fariam agora? Ele volta para o bar. Pede uma dose dupla de rum e pensa em tudo o que deixou de fazer; em cada oportunidade perdida. Ser mais arrojado talvez fosse a solução, mas ele prefere a segurança do poderia, do quê o incontestável do aconteceu. Valeu a pena? Só quem contemplou o fundo daquele olhar sabe a resposta...

terça-feira, abril 03, 2007

Visita

Ele se olha no espelho pendurado no canto do seu quarto-cozinha e pensa que deveria ter aparado a barba. Talvez cortado o cabelo também. Cheirou a camisa pendurada na cadeira e achou que deviria tê-la lavado. Na verdade ele achava que a sua vida precisava de ordem, de organização. Precisava retomar as rédeas, controlar as coisas. Na vitrola (ele ainda tinha uma) tocava o LP construção, do Chico, que ele havia encontrado num sebo. Arrumou as coisas em cima da mesa. Pôs duas xícaras, uns pãezinhos, uma rosa que havia roubado de algum jardim e foi esquentar a água para o chá. Queria que estivesse tudo pronto para quando ela chegasse. A campainha toca. É ela. Estava divina no seu vestido de primavera, os cabelos negros soltos e um nada de maquiagem. Ele pede que entre e que se sente. Ela recusa. Ele pergunta se ela gostaria de um pouco de chá. Ela diz que está com pressa. Ele oferece uns pãezinhos. Ele diz para acabarem logo o que têm que fazer. Ele concorda. Eles se abraçam e ela lhe dá um beijo vigoroso e demorado. É a melhor sensação da vida dele. Tudo gira e vai anuviando. Seu corpo está leve junto ao dela. Não sente mais nada. Dois dias depois a vizinha encontra o corpo do jovem senhor. Estava morto, fedendo e com um sorriso indefectível nos lábios...