sábado, janeiro 13, 2007
DON JUAN - TRADUÇÂO
DON JUAN
Veneza, 16 de setembro de 1818
Canto Primeiro
(excerto)
Eu desejo um herói, um herói extraordinário,
Quando cada janeiro lançar em frente um novo janeiro
E até de jargões saciado o oficioso diário,
As eras descobriram que ele não é o verdadeiro;
Sendo assim eu não cuidarei do seu louvatário,
Por isto escolhi Don Juan, nosso velho companheiro;
Todos nós o conhecemos em cima do tablado[1],
Mandado antes do tempo para o diabo.
Vernon, Wolfe, Howke, Cumberland o estripador,
Príncipe Ferdinand, Granby, Burgoyne, Keepel, Howe,
Bons e maus, tiveram sua parte no louvor;
Como Wellesley deixaram também o seu sinal,
Cada um, como o rei Banquo, avança com esplendor;
Seguidores da fama, “os nove leitões”[2] da porca ancestral:
A França, também, teve Napoleão e Dumorier
Registrados pelo Moniteur e Courier.[3]
Barnave, Brissot, Mirabeau, Condorcet,
Petion, Clootz, Marat, La Fayette, Danton,
Eram franceses famosos como devemos saber;
E existiram outros, pouco esquecidos até então,
Hoche, Marciau, Lannes, Desaix, Moreau, Joubert,
Com muitos militares – tropa e pelotão -
Por eras serão extremamente notáveis,
Mas aos meus versos não são aceitáveis.
Nelson da Bretanha foi o senhor do mar,
E ainda deve sê-lo, mas a maré está mudando;
Não há nada mais a ser lembrado de Trafalgar[4],
Nosso herói está entre nós, na urna descansando;
Porque o exército tornou-se popular,
E até os marinheiros estão disso se aproveitando,
Além disso, o príncipe é, para todos, da pátria o guardião,
Relegando Duncan, Nelson, Jervis à escuridão.
Antes de Agamêmnon bravos homens viveram,
E desde então vão se superando em valor e sabedoria;
Calma como nenhuma, uma boa negociação tiveram,
Mas sobre eles os poetas não fizeram nenhuma elegia;
Não condeno a ninguém porque deles se esqueceram,
Porém não acho em nossa era homens com tal maestria,
Ajustado de tal maneira a minha poesia vã,
Então, como disse, aceitarei nosso amigo Don Juan.
VENICE, September 16, 1818.
CANTO THE FIRST.
I WANT a hero: an uncommon want,
When every year and month sends forth a new one,
Till, after cloying the gazettes with cant,
The age discovers he is not the true one;
Of such as these I should not care to vaunt,
I 'll therefore take our ancient friend Don Juan-
We all have seen him, in the pantomime,
Sent to the devil somewhat ere his time.
Vernon, the butcher Cumberland, Wolfe, Hawke,
Prince Ferdinand, Granby, Burgoyne, Keppel, Howe,
Evil and good, have had their tithe of talk,
And fill'd their sign posts then, like Wellesley now;
Each in their turn like Banquo's monarchs stalk,
Followers of fame, 'nine farrow' of that sow:
France, too, had Buonaparte and Dumourier
Recorded in the Moniteur and Courier.
Barnave, Brissot, Condorcet, Mirabeau,
Petion, Clootz, Danton, Marat, La Fayette,
Were French, and famous people, as we know:
And there were others, scarce forgotten yet,
Joubert, Hoche, Marceau, Lannes, Desaix, Moreau,
With many of the military set,
Exceedingly remarkable at times,
But not at all adapted to my rhymes.
Nelson was once Britannia's god of war,
And still should be so, but the tide is turn'd;
There 's no more to be said of Trafalgar,
'T is with our hero quietly inurn'd;
Because the army 's grown more popular,
At which the naval people are concern'd;
Besides, the prince is all for the land-service,
Forgetting Duncan, Nelson, Howe, and Jervis.
Brave men were living before Agamemnon
And since, exceeding valorous and sage,
A good deal like him too, though quite the same none;
But then they shone not on the poet's page,
And so have been forgotten:- I condemn none,
But can't find any in the present age
Fit for my poem (that is, for my new one);
So, as I said, I 'll take my friend Don Juan.
[1] Referência a peça de Moliére
[2] “nove leitões” – referência irreverente aos nove nomes do começo da estrofe., comparado aos oito reis e depois a Bonquo (personagem que aparece em Macbeth). Na verdade é mais um jogo lingüístico de Byron, do que uma referência exata.
[3] Jornais da época. O Moniteur continua existindo na Bélgica.
[4] Batalha em que a frota marinha de Napoleão foi derrotada e acabou com o sonho deste de conquistar a Inglaterra, levando a guerra para lá.
domingo, dezembro 31, 2006
Feliz Ano Novo
Se paro um instante
E olho ao meu redor
Vejo bárbaros ululantes
Destruindo o sonho de um mundo
Melhor.
Ou nossa esperança se renova,
Ou nos entregamos de vez;
Pois sonhar só estorva
Quem optou pela cupidez.
Igualdade, Liberdade, Fraternidade;
O Ideal de um mundo justo;
Pilares da vida corroídos pela maldade,
Mas que resistem a muito custo.
Parafraseando o santo inglês
“Criamos os ladrões para depois enforcá-los”
podíamos ser melhores, ao invés,
quando tentamos salvá-los.
E no patíbulo pendurado,
Saddam é o símbolo do que vem.
O “olho por olho” foi restaurado;
A justiça tombou; o mal venceu o bem.
Morte, guerra, fome, destruição, pobreza
Não são os votos de ninguém para o novo ano;
Mas são as nossas únicas certezas
Para 2007, que ao invés de venturoso
Será totalmente insano.
Para ano que vem teremos novidades no Inhame Filosofante. Felicidades a todos.
See you!
sexta-feira, dezembro 22, 2006
TPN, ou uma crônica de Natal.
Uma semana antes Ela acordou meio estranha. Era algo meio físico, meio psicológico. Estava com dor nas pernas e a boca seca, por conta da ressaca, causada pelo excesso de caipirinhas de bacardi que havia tomado na festa de fim de ano da repartição onde trabalhava. Sentia um comichão lá no fundo. Não sabia se era por conta dos pernilongos desta época do ano, ou uma inquieta vontade de apertar uns pescoços. Levantou-se e olhou-se no espelho. Realmente gostou do que viu. Foi para cozinha e viu um stick amarelo na geladeira lembrando-a que sua mãe queria fazer as compras de natal dali a dois dias. “Merda”, pensou ela. No trabalho ninguém estava numa situação boa, pois todos tinham abusado da bebida e da comida. O pior mesmo eram os comentários sobre a festa. A maioria maldosos e alguns sobre ela. “Bosta, será que eu fiz algo que não lembro!?”. Ela achava que não, mas sabia que os sorrisos e tapinhas nas costas eram apenas teatro de um povo com aspirações de civilidade. Sorte sua que era seu último dia e que só voltaria na semana seguinte ao Ano Novo. Cinco dias antes Dia das compras. Não suportava o jeito com que sua mãe a tratava. Ela morava sozinha e era independete finaceiramente, mas sua mãe sempre a tratava como uma adolescente que precisa de vigilância. “Você não anda bebendo demais?!” Perguntava sua mãe sempre que se viam. Mas ultimamente a pergunta que mais a incomodava e que ela tentava evitar a todo custo: “Não está na hora de arranjar um namorado!?”. “Mas que droga”, pensava ela, “sim está na hora, mas não aparece nada decente para mim! Só aquele mala do meu ex que não larga do meu pé. Que merda!”. Após horas rodando pelos shoppings e lojas da cidade ela conseguiu o que queria. Lógico que teve que disputar a tapas, literalmente, algumas peças. Mas nada que um sorriso e um chute certeiro na canela não consigam. Voltou para casa com dois vestidos, três sandálias, umas blusinhas, uma tremenda dor nas costas e com a vontade de matar alguém aumentando. Suas cachorras vieram fazer festa quando ela chegou e quase levaram um chute também. Fez um chá e foi dormir. Três dias antes Sua irritação estava batendo records. Não havia matado ninguém ainda, mas, por segurança, mandou suas cachorras para passar uma temporada num hotel para cachorros. O seu irmão ligou pedindo dinheiro para comprar um presente para a nova namorada. “Além de tudo tenho que finaciar este vagabundo e suas vadias.” Acabou descobrindo que tinha comprado um vestido maravilhoso para o Ano Novo, mas não sabia nem onde ia passar a virada. Marcou cinema com um amigo. No meio de milhares de filmes sobre natais em família e crianças perdidas em casa ou aeroportos acharam um filme bom. Apesar da lotação do shopping, já que esta maravilhosa cidade não tem mais cinemas de rua, não demoraram mais do que meia hora para achar um lugar para estacionar. Viram o filme e, no cinema, dois mudos sentados na mesma fileira não pararam de falar. "Meu Deus!!!! As pessoas que você nunca imaginaria que incomodassem não param de se comunicar e de balançar todo o banco"; depois foram beber algo. “Mas que merda. Além de ter que sair com amigo por falta de namorado, este idiota não tira o olho do meu decote.” Ele a deixou em casa. “Agora deve estar olhando minha bunda”, pensou ela. “humft”. Tomou alguns calmantes foi dormir. Véspera de natal. Só de pensar que teria que passar o natal com os parentes na casa de sua avó, ela queria sumir. Infelizmente não podia, porque, pior do que o natal na casa da sua vó, era ter que agüentar sua mãe e os parentes questinando-a o ano inteiro sobre o porquê de não ter ido. Pelo sim, pelo não cabou indo. Afinal não ia durar muito. Depois da troca dos presentes e da revelação do amigo secreto (que bem que podia ser inimigo secreto) eles foram ceiar. Na mesa ela teve a infelicidade de sentar entre duas das suas tias “prediletas”. “Ai como você está magra!” “Onde está o namorado” “Você está ganhando bem, né!?” e mais uma rajada de perguntas. Ela só respondia com gestos de cabeça, ou com simples “sim” “não”, mas na sua cabeça pensava em mil respostas ácidas e sarcásticas; e só não as usava em consideração a sua vó, que no momento lhe oferecia outra coxa de peru. Quando estava tudo acabando e ela permitia-se ficar quase alegre veio a intimação: “você vem almoçar aqui amanhão, né!?”. Respondeu com um grunhido “humpzchit”. É podia ser pior. Natal Acordou com a cabeça latejando. Olhou-se no espelho e não gostou nada do que viu. Vestiu-se e foi, novamente, para casa da sua vó. No caminho recitava o mantra: “não vou matar ninguém. Não vou matar ninguém”. Chegando lá teve que comprimentar a todos novamente e encarar os mesmos sorrisos falsos. Pode perceber que suas tias cochichavam sobre ela: “Viu só, não se mistura.” “é uma metida mesmo”. Estrangulou um guardanapo para não fazer o mesmo com algum parente. Seus primos com os respectivos acompanhantes não melhoravam a situação. Almoçaram churrasco com a ceia requentada. Depois do almoço o seu humor estava melhor. “Pronto: acabou!” permitiu-se até um sorriso, que logo se extingüiu: “Você vem passar o Ano Novo com a gente, não vem!?” Um grito de pavor morreu em seus lábios. Nem respondeu. Empurrou as duas tias que estavam na porta, chutou um primo que resolveu namorar no portão, pegou as chaves do carro e fugiu sem olhar para trás. Quando estava quase chegando numa praia maravilhosa ela pensou: “Que merda! Deveria ter feito isto antes”.
A todos os leitores do meu blog um feliz natal e nos vemos novamente ano que vem. Se eu não voltar é que eu quebrei a banca de algum cassino argentino e estou viajando por aí, ou fui morto por este mesmo motivo... |
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Mais Poesias
A última rosa, ou
boas vindas ao verão.
A última rosa do meu
jardim
morreu esta manhã.
Se botânico eu fosse,
diagnosticaria uma febre
terçã.
E, por ter sido cativado,
eu chorei!
Lágrimas rolaram pelo chão
regando em meu peito
a semente da
solidão.
Meus olhos embotados
cegaram meu coração;
que não percebeu
a promessa de vida
que vem com cada nova
estação.
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(sem nome)
Se tu afirmas que me ama
Eu finjo que acredito.
Isto piora minha sina
De ser teu poeta maldito.
Neste caminho triste;
Quanto sonho, quanta desilusão
Por crer num amor
Feito de vento e solidão.
As palavras que me dizes,
As vezes parecem tão ocas
E chego a duvidar
Que elas saíram de tua boca.
Eu gostaria de ter esperança;
De não questionar teu amor,
Mas quando me aproximo
Acabo afeito ao dissabor.
Porém meu destino sinistro
É o um eterno buscar
Para quem sabe um dia
No teu coração ter lugar.
terça-feira, dezembro 19, 2006
Poesias
PANEGÍRICO
O Bruno é assim
Com sua moral argêntea
Nos ensina que hombridade
É total apreço pela verdade.
E com sua humildade
Podemos logo perceber que
As palmas não o envaidecem,
Nem os apupos o embrutecem
Se você é um dos seus amigos
Sabe o que estou dizendo,
Pois nos defende, se preciso, até morrendo.
E com ele não tem vida madrasta,
Pois aceitas seus revezes com esperança
Característica de quem tem fé, fé de criança...
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Está já foi publicada na II Antologia do Poetas Brasileiros Contemporâneos e no site http://www.camarabrasileira.com/alvaro.htm . Ela foi escrita em maio de 2002 um tempo feliz, mas foi para uma pessoa triste e confusa.
Sonhos
Do fundo do eu minh’alma canta;
Canta versos de tristeza e dor;
Pintados com cores fortes de amor
Para aquela que inspira e encanta.
Cândida em meus sonhos ela aparece;
Beija-me com sofreguidão e ternura.
Cena surrealista que um instante dura;
Flor-de-verão que quando nasce fenece.
Seus olhos em mim estão;
Refletindo dor, querendo ajuda;
Chora baixinho, as lágrimas brotam;
Tristeza inspira, queda-se muda.
Quero ajudá-la dando o que tenho;
Mataria dragões, não importa o empenho.
Para vê-la feliz tudo faria,
Mas acordo só na noite fria.
domingo, dezembro 17, 2006
Poesia
Ainda sinto
Tua irreal presença
Neste recinto
E nos meus lábios
Trago ainda o sabor
De teu beijo maculado
Dado sem ódio, ou amor.
Das marcas que tenho
As que eu gosto não foram impostas
São das tuas unhas carmesins
Em minhas costas
E dos amores que vivi
Lembrar nunca é demais
Que é, e sempre foi, de ti
Que eu gosto mais.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Amar-te
É cravar uma adaga
No peito;
É ver meu grande sonho
Desfeito;
Sangramento que não se
Pode estancar.
É a dor
De uma sede que não
Sacia;
Um mal, uma doença
Que vicia;
È morrer sem
Expirar.
É mal-querer a mim
Mesmo;
É vagar, fugir, andar
A esmo
Procurando ao invés de
Conforto
Um novo
Penar.
É chorar todo dia
Vivendo sempre a mesma
Agonia
De não querer
Nada mais a não ser
Te amar.
terça-feira, dezembro 05, 2006
O Oleoso Guerreiro Contra o Dragão do Capitalismo - Parte III
Ele também começou a fazer apologia ao esporte. Abandonou o hábito de empurrar a bicicleta e passou a pedalar; começou a dar palestras nas escolas sobre os benefícios da prática de exercícios; e até perdeu a barriga de cerveja e ganhou uma de tanquinho.
O Plano diabólico estava dando certo.
A verdade é que a empresa que o patrocinava estava interessada em aumentar o número de pessoas que praticam esportes e, assim, aumentar a venda de seus produtos. Isto seria legítimo se não fosse por um detalhe: ESPORTE MATA!!!
Sim meus amigos leitores, ESPORTE MATA!!! Assim nos ensina o Doutor José Róiz, de saudosa memória. O homem não foi “projetado” para praticar esportes. Se assim fosse seriamos quadrúpedes e teríamos o coração com o dobro do tamanho. Mas a nossa condição de bípedes faz com que nossa circulação não consiga mandar sangue suficiente para o cérebro e para as pernas quando nos exercitamos, o que sobrecarrega o coração e cria a anomalia conhecida por “coração de atleta”, causa de inúmeras mortes, pois o coração fica excessivamente grande, de uma forma patológica, o que causa uma série de problemas. Sem contar toda a nova carga hormonal que nos faz envelhecer mais rapidamente... Mas porque ninguém divulga isto??? Oras, porque os esportes movem muito dinheiro na nossa sociedade e, se em Roma tínhamos o Panis et Circens, hoje nos temos o futebol e a cerveja. É o dragão do capitalismo que tudo devora e depois expele, por via retal, como mercadoria.
Mas voltando a nosso amigo....
A verdade é que com o tempo ele passou a contar com o apoio de uma elite curitibana (sabe... aquela que tem uma torneira de água e a outra de água oxigenada) e esqueceu o povo que sempre o apoiou. Foi assim que quando nosso amado Oil Man estava andando no centro da cidade, num fim de tarde primaveril, esbarrou numa turba ululante, composta de sem-terras, universitários e moradores de ruas. Estes estavam protestando por alguma coisa, mas quando viram nosso dileto herói começaram a gritar: “Vendido, vendido, vendido”; e passaram a persegui-lo. Oil Man tentou achar abrigo numa loja de grife, mas foi escorraçado de lá. Tentou pedir ajuda num shopping, mas os seguranças não o deixaram entrar. Ele tinha sido abandonado.
Oil Man começou a correr em sua bicicleta em busca de abrigo. Foi quando ele enveredou pela Cruz Machado e parou em frente ao “Pantera Negra”, vulgo “Gato Preto”. Para quem não conhece este lugar é uma mistura de Ledô com Madalosso; um ambiente medieval, pois só entra cavalheiros e dragões. Mas foi ai que ele se escondeu. Não adiantou. A turba ensandecida invadiu o lugar e o encurralaram num canto. Ele temeu por sua vida, mas resolveu encará-los de frente. Nosso amigo avançou contra a multidão como em berseker, pronto para matar ou morrer. Os revoltosos tentavam em vão agarrá-lo, mas ele escorregava graças ao óleo. Foi quando alguém lhe passou uma rasteira e outro lhe deu um “cavalo deitado” e ele caiu em cima de uma mesa estraçalhando-a. Era o seu fim...
Foi quando ao fundo tocou um violão e um “maluco beleza” entrou no lugar cantando. Era o Plá. Ele cantava assim: “Se Maomé não vai a montanha, então a montanha vai até Maomé... “ (isto repetido umas 32 vezes). Todos silenciaram. Plá aproveitou para falar com o Oil Man: “Aí bichto, faz um tempo que eu quero trocar um lero contigo. Larga dessa vida maluco. Nóis é tudo poloneis; nóis têm que batalhar contra o sistema tá ligado!?” Nosso amado herói começou a chorar, pois entendera o recado. Tinha que voltar a suas origens.
Tirou a sunga dos patrocinadores e vestiu uma samba canção de um dos garçons. Ia tirar o tênis também, afinal só podia entrar de sapato no recinto, mas o dono do lugar abriu uma exceção a todos naquele dia. O Plá voltou a tocar e o forró comeu solto no “Gato Preto”, ou “Pantera Negra” se preferirem. Os revoltosos e as “mariposas” do local começaram a dançar. A costela a role para todos. A Xingu também. E foi assim que o nosso amigo se redimiu da sua aventura pelo o mundo burguês, que no final o abandonou, e acordou nos braços da Rose Peluda, num quarto de luxo do Popp’s...
quarta-feira, novembro 15, 2006
o Oleoso Guerreiro contra o dragão do Capitalismo - Parte II
| Estava ofegante. Estaria suando também se o óleo que lhe cobria o corpo o permitisse. Encurralado não tinha mais como fugir. Precisava enfrentar a turba enfurecida que o perseguia com foices, enxadas e ceifadeiras. Sua morte estava próxima... |
terça-feira, outubro 31, 2006
Distraída
Ao te ver passar assim
Andavas tão distraída
Que quase tropeças em mim.
Terá sido uma ilusão?
Um sonho bom talvez?
No compasso do meu coração
Batia o teu outra vez.
Oh, ditosa ventura
Poder assim te reencontrar
Este anjo de candura
Por quem fui me apaixonar
E a alegria incontida
O sorriso em teu olhar
Trouxeram novo calor a vida
De quem só fez te amar.
sábado, outubro 28, 2006
O Oleoso Guerreiro e o Dragão do Capitalismo.
Quem observa de longe acha que o calçadão da rua Quinze, a rua das flores, é um imenso formigueiro humano. Com os meninos e meninas que distribuem panfletos, os pedintes, os vendedores de bilhetes de loteria e toda aquela massa de gente que passa por ali todos os dias. No meio desta multidão alguém se destaca: nosso herói Oil Man.
Incólume no meio da turba ele passeia com sua inseparável bicicleta, sua indefectível sunga e velho tênis. Além do corpo sempre coberto com óleo de urucum e o cabelo preso num rabo de cavalo a la Heloisa Helena. Sua missão é defender Curitiba das hordas dos servidores do mal. Em sua última aventura ele quase morreu, mas depois de algumas semanas no Hawaii ele estava de volta a nossa dileta cidade, pronto para novas empreitadas (ou presepadas).
Como sempre seu patrulhamento começara cedo aquele dia. Andando com sua bicicleta pelas ruas da cidade a procura de alguém a quem ele pudesse ajudar. Foi que, quando ele passava pela Riachuelo, ouviu um grito de mulher pedindo ajuda. “Não temais gentil senhora, estou a caminho!” disse nosso amigo indo ao seu auxílio. Chegando ao local ele encontrou a jovem senhora caída no chão, com as roupas descompostas e as mãos no rosto cobrindo as lágrimas. E que mãos ela tinha: quase duas vezes maiores que a do nosso amado herói. Oil Man deixou sua bicicleta encostada na porta de uma lojinha e foi ajudar a pobre moça a se levantar. Foi quando ele ouviu uma voz grave que dizia: “Perdeu mano!”; a moçoila se levantou e com a velocidade de um guepardo atacou nosso destemido companheiro com suas mãos, e que mãos!, embebidas num composto de óleo de baleia com comigo-ninguém-pode (a kriptonita do nosso herói). Um golpe foi suficiente para nocautear nosso amigo.
Quando ele recuperou a consciência, havia a sua volta quase uma centena de populares, dois guardas municipais e alguns camelôs vendendo fotos suas autografadas. Nosso herói levantou-se e foi a procura de sua inseparável bicicleta, mas ela não estava mais lá. Algumas testemunhas disseram que a moça (?) que o derrubara saiu pedalando a bicicleta e ninguém soube dizer para onde. Desta maneira uma parceria de mais de quinze anos foi desfeita. Resignado com seu destino como só os grandes heróis sabem ser, ele agradeceu aos que lhe ajudaram e prosseguiu impávido, e á pé, sua jornada de patrulhar as ruas de nossa querida cidade.
Uma semana se passou e nosso amigo Oil Man continua sua missão andando pelas ruas de Curitiba. Bem a verdade ele se sentia nu sem a sua bicicleta, mas não podia desistir. As pessoas precisavam dele. Foi quando, enquanto ele andava pela rua Quinze, apareceu um senhor de alta classe com dinheiro na mão. E ele disse que tinha uma proposta, uma proposta indecorosa para Oil Man. Foram até um bar da boca maldita para tomar um chopp e o jovem senhor disse: “Seguinte, meu querido: eu represento uma grande empresa multinacional e nós trabalhamos com material esportivo, e como você é um esportista também, queremos te patrocinar. Nós te daremos uma bicicleta nova, uma sunga com a marca da empresa e um tênis também com a nossa marca e tudo o que você tem que fazer é andar pela cidade, como você sempre fez, e divulgar a nossa marca.” A princípio Oil Man não quis aceitar, mas ele precisava desta ajuda para continuar sua jornada. Relutante ele aceitou e combinou que iniciaria no outro dia
A noite, na sede da empresa, os executivos exultavam. Tinham conseguido trazer para seu lado um super-herói e este era o passo final para a dominação do mundo. Com o Oil Man em suas mãos nada poderia detê-los. Melhor: eles agora tinham um aliado em sua luta para derrubar todos os governos que não fossem seus aliados e divulgar seu ideal de vida.
No outro dia pela manhã lá estava nosso amado herói andando pelas ruas da cidade numa bicicleta nova com as marcas da empresa...
E agora, será que conseguirão enganar nosso herói para sempre? O que acontecerá com a humanidade? E se for verdade? E será que vou conseguir terminar minha monografia agora que voltei a escrever sobre o Oil Man? Esperemos pelo pior...
sexta-feira, outubro 27, 2006
Tu
Com teus cabelos negros
E teu sorriso de aurora
Tu és tão menina
Com teu olhar profundo;
Tua conversa que fascina
Tu és tão delicada
Suas mãos macias;
Teu perfume de madrugada.
Tu és tão amável
Tua alegria contagiante;
Teu jeito inexplicável.
Tu és tão...
Mas não és minha!
quarta-feira, outubro 25, 2006
Poesia
Que cresce na encosta do precipício
Só quem tem coragem e ardor
Conseguirá alcançar seus auspícios.
Queria entregar-me a tal paixão
Mas seus olhos são sumidouros
Para chegar a teu coração
Terei que entregar meus tesouros
Tal empreitada vale a pena
Se de ti tivesse resposta
Diga-me minha querida falena:
És de mim que tu gostas?
quinta-feira, outubro 12, 2006
Como as coisas mudam
| Slogan do Lula: O certo contra o duvidoso. Só falta agora o Alckmim dizer: o a esperança contra o medo! tststst Mas eu voto no Lula e o motivo é porque, apesar da desilusão de minha parte, ele fez um bom governo para os mais pobres (e para os mais ricos também. Só ferrou com a classe média). E mais questões que eu escrevo num outro post. No mais a campanha sempre me diverte. Mas se a dupla Osmar e Geraldo ganharem eu me exilarei. No estado do Paraná Temos o olho no olho dos candidatos e que faz me lembrar a música do Chico Buarque "Olhos nos Olhos", que fala da separação de um casal. Parece ser bem o caso. Olhos nos Olhos Chico Buarque Requião para Osmar quando este resolveu sair candidato Quando você me deixou, meu bem Me disse pra ser feliz e passar bem Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci Mas depois, como era de costume, obedeci Requião falando da sua campanha que esta indo, não bem demais, mas indo Quando você me quiser rever Já vai me encontrar refeita, pode crer Olhos nos olhos Quero ver o que você faz Ao sentir que sem você eu passo bem demais Osmar falando para Requião sobre sua aliança com Rubens Bueno, Cássio, Lerner entre outros E que venho até remoçando Me pego cantando, sem mais, nem por quê Tantas águas rolaram Quantos homens me amaram Bem mais e melhor que você O ganhador para o perdedor, dizendo que não importa quem ganhe eles vão ser amiguinhos Quando talvez precisar de mim Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim Olhos nos olhos Quero ver o que você diz Quero ver como suporta me ver tão feliz |
terça-feira, agosto 15, 2006
Salmo
Juntos aos Cedros do Líbano
Nos sentamos e choramos
Com saudades dos tempos de paz;
E gritamos ao nosso Deus
“Senhor, onde estais ?”
Como Agar no deserto errante,
Desesperados nós clamamos;
Perguntando ao nosso Deus:
“Por que nos castiga tanto?”
Somos filhos de Ismael
“Ouve ó Deus nosso pranto”;
Como outrora Israel levanta-se
E fugimos só com a noite como manto.
Favorece-nos outra vez ó Deus
Estabelece novamente nossa paz
Ai, então, ouvirão cantos e salmos
Ao invés de soluços e ais.
PS Na Bíblia e na tradição mulçumana os árabes descendem de Ismael, filho de Abraão e Ágar. Ele e sua mãe foram expulsos da Casa de Abraão para garantir a herança de Isaac (de quem surgiu Israel). No deserto eles quase morrem, mas Deus os ouve e acolhe numa nova terra. Ismael significa "Deus ouve" (do hebraico Ismh'el).
sexta-feira, agosto 04, 2006
Zuzu Angel
Esse é o filme sobre uma mãe que perde o filho para a ditadura militar (apesar de alguns ainda insistem em dizer que não foi violenta, ou que ela foi “redentora”) e passa a encará-la de frente para reaver o corpo do filho morto. Zuzu não pára, ela é parada pela ditadura que a mata depois que ela sai de um viaduto, o hoje conhecido “Viaduto Zuzu Angel”.
Vendo este filme eu consegui entender toda a profundidade do meu verso de música preferido; que é do Chico Buarque, que foi um grande amigo de Zuzu e para quem ela entregou uma carta dizendo que se morresse a culpa era dos militares. O verso é tirado da música “Pedaço de mim” e diz: “A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. A melhor definição desta palavrinha (saudade) que só existe na língua portuguesa. Na verdade penso que só uma cultura como a portuguesa, que era de navegadores intrépidos, poderia criar uma palavra para descrever este sentimento. Como diz o poeta “Ó mar salgado quanto do teu sal? São lágrimas de Portugal?”. Só uma nação que se entregou ao mar sabe o que é sentir saudade. Só uma mãe que perde um filho sabe o que é sentir saudade.
Angélica
(Miltinho e Chico Buarque)
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar
Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar
Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele não pode mais cantar
P.S . música escrita para Zuzu Angel
domingo, julho 23, 2006
Quadrilha
Osmar amava Álvaro que amava Roberto
que amava Hermas que amava Beto
que não amava ninguém.
Osmar continuou senador, Álvaro foi para a oposição,
Roberto morreu de desastre, Hermas ficou para governador
e Beto apoiou o Rubens que não tinha entrado na história.
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia
,Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. (Carlos Drummond de Andrade)
E no Brasil as coisas vão bem. A Lolô está crescendo nas pesquisa e acho que Pimenta com Chuchu vai fazer mal para o presidente.
quarta-feira, junho 21, 2006
Poesiazinha
Na troca de olhares
Pude sentir os encantos
De teus beijos singulares.
Sonho finalmente realizado;
Tua boca com a minha juntar.
Momento a muito idealizado
Que na vida real achou lugar.
Oh, noite de venturoso prazer;
Poder contigo flertar;
Fazendo a vida a pena valer.
Quente boca que ousei tocar,
Para a minha alegria, meu pesar;
Quando, de novo, poderei lhe beijar?
quinta-feira, junho 08, 2006
O Caçador de Pipas
Sabe aqueles livros que, depois que você os lê, você se sente órfão, abandonado? Aqueles livros que te roubam o chão, revolucionando todo o seu pensamento. Geralmente, quando estou lendo, eu vou engatando um livro no outro: mal termino um e já estou lendo outro. Mas certos livros precisam de um tempo de meditação depois. Um tempo para você reorganizar sua vida e suas idéias. Um tempo para você terminar de digerí-los.
De todos os livros que eu já li não mais que cinco estão nesta categoria. Não estou sendo injusto com os outros, mas é que esses me fizeram repensar toda a minha vida, como se tudo o que eu tivesse vivido não fosse nada.
Um deles foi “A Idade da Razão” do Sartre. Lembro que depois de lê-lo eu passei uma semana que recompondo. Reconhecer a consciência nos outros; que eu sou aquilo que os outros pensam de mim; que cada consciência é livre e interligada. Muitas outras questões apareceram. Vi-me pela primeira vez como um ser pequeno burguês cheio de preconceitos e idéias pré-concebidas e não achei isto ruim. Lembro que em certas partes do livro eu sentia um gosto amargo na boca, como se fosse uma reação ao quê minha mente estava passando.
Outro livro que eu posso citar dentro desta categoria é “Os Miseráveis” do Vitor Hugo. Até hoje a figura de Jean Valjean me persegue. Mas de uma maneira boa; penso em como ele agiria, ou o que ele faria em certas situações. Maravilhoso este livro. Mostra que todos somos vítimas mais da sociedade do que da “natureza” e um homem pode tentar se reerguer, mas a sociedade que criou o ladrão, não podendo enforcá-lo,não deixa, relegando-o a subcategorias. Quem é mais “miserável”: Jean Valjean ou Valvert?
Por fim o livro que terminei hoje as 06:00 horas da manhã: “O Caçador de pipas” de Khaled Housseini. Passei o dia remoendo e repensando o livro. Quanto tenho de cada personagem? Não sei! O livro fala de amizade; de relações; de culpa e perdão. Se você quer saber do que o livro fala vá ler a crítica da “Veja”. Sobre este livro só posso dizer que eu ainda estou meditando, preso a sua força. Amir, que é o protagonista, durante o romance toma certas atitudes que me fez ter raiva dele, mas depois eu me peguei pensando: eu, no lugar dele, faria diferente? Não saberia responder! Sei que este é um livro que me marcou muito e ainda não vislumbro aonde ele vai me levar. Sei que por vezes quis jogar o livro para longe e não lê-lo mais; não por ele ser ruim, muito pelo contrário, mas por medo do quê eu sei que ele faria comigo, e fez, depois de sua leitura. Hoje, se alguém me pedisse uma indicação de livro, com certeza eu só saberia responder: “O Caçador de pipas”!
segunda-feira, junho 05, 2006
Lolita
Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.
Realizei uma das minhas ambições intelectuais: li Lolita do russo Vladmir Nabokov. O livro é muito bom, mas a parte que mais me toca é este começo, que em termos de narrativa e descrição é a melhor do livro. A história é fantástica e eu só a tinha visto na TV, num filme com o Lian Nelson (que, diga-se de passagem, fez meu personagem preferido, Jean Valjean, no cinema também) que é a versão mais recente. Mas, como todos sabem, adaptações de obras literárias para o cinema nunca ficam boas.
O livro, como é de conhecimento comum, fala das relações de um quarentão e de uma menina de doze anos. Por sempre ter sido tratado por imoral e por falar deste grande tabu que é a pedofilia, têm-se a impressão de que o livro vai ser cheio de passagens picantes e obscenas. Muito pelo contrário. O livro é sutil nesta parte e fala mais dos conflitos e das dores e amores do senhor Humbert Humbert.
Nabokov estava nos EUA quando escreveu Lolita, e fez questão de fazê-lo em inglês. Não é um livro que fale mal do “Anos Dourados” americano como podemos pensar depois de uma leitura mais rápida, mas com certeza retrata a decadência de uma sociedade do pós-guerra. Não pela pedofilia, já que o professor H.H. é europeu, mas pelo comportamento de todos os outros personagens que giram em volta de Lolita e seu padrasto. As meninas são todas depravadas e as mulheres de idade também. Os homens são pusilânimes e, mesmo suspeitando que professor Humbert abuse de Dolores Haze, nunca tomam atitudes.
O livro é muito bom e vale a pena ser lido. Não porque é um dos clássicos da literatura mundial, mas porque é muito bem escrito. Sobre o tema (pedofilia), o autor diz que foi escolhido para chocar a sociedade americana da época (tanto que o livro foi publicado primeiro na França). Os outros dois temas que ele diz que também chocariam e que ele cogitou: um branco casando com uma negra (ou vice-versa) e tendo filhos e netos e vivendo felizes; ou ao ateu incorrigível que leva uma vida útil, feliz e produtiva e não carrega remorsos. Olhando de longe, estes temas continuam sendo tabus não só nos EUA como em boa parte do mundo!